Soro neutraliza efeitos da picada de peixes venenosos

Soro neutraliza efeitos da picada de peixes venenosos

Nilbberth Silva
nilbberth.silva@usp.br

08/04/2009 16:03

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Agência USP de Notícias

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Pesquisa realizada no Instituto Butantan possibilitou o desenvolvimento de um soro capaz de neutralizar o veneno de peixes em camundongos - que incluem necrose e dor aguda por meses. A expectativa é que o soro possa ser aplicado em humanos em,  no mínimo, um ano.

"O soro tem anticorpos que neutralizam os efeitos dos venenos de quatro peixes cujos acidentes são mais comuns no Brasil: o bagre, o niquim, o peixe escorpião e a arraia de rio", explica a autora do mestrado que incluiu a pesquisa, Fernanda Bruni. "Se o pescador se acidentou e não sabe dizer de qual peixe, a idéia é que esse soro resolva ou diminua o problema".

O venenos dos peixes podem provocar dor intensa e inchaço por meses e causar necrose (morte de uma parte do corpo) na região afetada. Também causar inflamações e dificultar a circulação. A picada do peixe escorpião pode dificultar a respiração e os batimentos cardíacos, fazendo com que a pessoa tenha falta de ar, vômito e naúseas. Esse processo pode gerar acúmulo anormal de líquidos no pulmão - o edema.

Para avaliar os efeitos do soro, Fernanda comparou um grupo de camundongos que receberam somente veneno com outros que receberam diferentes venenos e soro.


Bagre (no alto) e arraia (acima) causam ferimentos profundos quando pisados
Os animais que foram envenenados pelo niquim e imediatamente receberam o soro não tiveram inflamação nem lesão nos músculos estudados. O inchaço deles também foi menor. Camundongos que receberam veneno de arraia ou niquim e, logo depois, soro, deram sinais de dor por um tempo cinco vezes menor. O soro também neutralizou os efeitos de inflamação pulmonar do veneno do peixe escorpião. "Quando injetamos soro quinze minutos depois do envenenamento, a porcentagem de neutralização diminui, mas ainda é muito eficiente".


Para produzir o medicamento, Fernanda injetou em diferentes camundongos doses do veneno de cada peixe, até que os animais produzissem anticorpos capazes de neutralizá-los. Depois, retirou do sangue dos camundongos os anticorpos e os misturou. O objetivo era formar um soro poliespecífico - capaz de neutralizar ao máximo os efeitos dos quatro venenos. "Soros poliespecíficos são mais mais baratos. O corpo também estranha menos quando recebe um soro para várias espécies do que vários soros, um para cada espécie de peixe", explica.

O soro por enquanto só funciona em camundongos. Ainda precisa ser fabricado em cavalos e depois melhorado para ser testado em postos de saúde. "Esperamos que fique pronto em no mínimo um ou dois anos", explica a orientadora Monica Lopes Ferreira, pesquisadora do Instituto Butantan.

Consequências
Peixe-escorpião (acima) e niquim (no (alto) em redes ferem pescadores 
Peixes venenosos são frequentes no litoral de Alagoas, Bahia, Santa Catarina e São Paulo. Por enquanto, não há cura para os efeitos das suas picadas, que podem durar de dias a meses. Pessoas que sofram envenenamento por peixes devem procurar um hospital. Os médicos costumam administrar anti-inflamatórios e analgésicos, mas esses remédios não impedem a necrose e o inchaço. "Um outra receita utilizada, é mergulhar a parte do corpo em água mais quente possível", explica Fernanda. "Mas o alívio só dura enquanto a parte do corpo estiver lá".

"Infelizmente, os acidentes são muito mal identificados. Quem acaba se machucando são pescadores, que muitas vezes não procuram tratamento", lamenta Fernanda, cuja tese foi defendida no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), da USP.

 "Também há poucos médicos capazes de relatar e descrever os tipos de acidentes por picada de peixe. Os relatos são muito poucos e não temos documentos falando sobre o assunto. Mas, quem vai a Alagoas percebe que os acidentes são muito comuns. Lá, há muitos pescadores sem pedaços dos dedos dos pés em razão do veneno de peixes", completa.

(Imagens cedidas pela pesquisadora)


Mais informações: (11) 3726-1024; e-mail fernandabruni@butantan.gov.br
 

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